
Ana Carolina Oliveira
Abre Caminhos
desenho (impressão digital para lambe-lambe). 210 x 178,2 cm
2025

Abre Caminhos é um gesto urbano e ritualístico: o tridente de Exu, impresso em preto e vermelho, funciona como chamada, memória e inscrição no espaço da cidade. Inspirada na pintura Quilombismo (Exu e Ogum), de Abdias Nascimento, a obra transforma a linguagem do lambe-lambe – presença múltipla e popular dos muros – em dispositivo de resistência, espiritualidade e reencantamento. Ao reunir quinze cartazes em painel, a obra retoma a visualidade das colagens em série, tão características das ruas, mas a inscreve no espaço expositivo como ritual de abertura e evocação de caminhos.
A obra propõe a encruzilhada como filosofia: não um ponto de perda ou indecisão, mas um lugar fértil de multiplicação de saídas, de trânsito, dúvida e criação. Nas filosofias afrodiaspóricas, o tempo não se organiza em linha reta, mas em espirais e retornos; nesse sentido, o trabalho convoca a ancestralidade como presença viva, que reaparece e ressoa no agora. O futuro não é um horizonte distante, mas pulsa no presente, em diálogo com a memória coletiva.
Ao friccionar arte, grafismo, rua e mito, Abre Caminhos cria um ponto de suspensão no ritmo acelerado do cotidiano: um convite a parar, escutar e reencantar o olhar. É também denúncia e gesto político, ao reafirmar mundos e modos de vida que resistem apesar da tentativa de apagamento. Se na cidade tudo parece fechado, o cartaz anuncia: Exu risca sempre a possibilidade de um novo começo.
Ana Clara Guinle
CORPO NEM TÃO MEU, SOBREVIVA!
Instalação de fotografias (fotoperformances com intervenções digitais). 115 x 75cm

Na busca incessante por pertencimento, LEVIANABADIA cria mundos. Frente à sua condição virtual, percebe-se impalpável. Então, dissolve-se, atravessando os infinitos horizontes avistados pelas janelas. Na potência das imagens sonhadas, sem fronteiras, constrói brechas para existir.
LEVIANABADIA é autoficção de Ana Clara Guinle — e também o nome da série fotográfica por meio da qual sua existência se atualiza. Com um conjunto de imagens da série, a instalação CORPO NEM TÃO MEU, SOBREVIVA! investiga o limiar do desaparecimento do corpo como gesto de resistência e busca por conexão.
Ana Luísa Oliveira
Limite INFLADO
airbag vestível para refletir impactos da hiperprodutividade sobre o corpo humano Montagem manual por costura, construída a partir de EVA, nylon, espuma, tubete, fita de gorgurão e tinta prata. Diâmetro: 22 cm, ajustável conforme a circunferência da cabeça
2024 – 2025

Limite Inflado é um dispositivo vestível que reage ao estresse do usuário, inflando ao redor da cabeça e bloqueando visão e audição para provocar uma pausa forçada. Pensado para o ambiente de trabalho, como o corporativo — onde o corpo também é continuamente testado em nome da performance —, o projeto critica a cultura de produtividade extrema e o sistema neoliberal que transforma o corpo em instrumento de desempenho constante. Inspirado na Sociedade do Cansaço, de Byung-Chul Han, o airbag atua como escudo contra a exaustão mental, tornando visível o desgaste invisível do trabalho excessivo e convida à reflexão.
Ana Porto e Rafael Felicio
Core
Monotipia
Folhas e pétalas de flores encontradas no campus Fundão/UFRJ Sobre papel texturizado 180g. 66,5 x 48 cm
2025

Com o uso de folhas e pétalas de flores do campus Fundão/UFRJ, Core representa como a natureza que nos cerca faz intrinsecamente parte de nós. Esse nome foi pensado com o significado de estrutura, centro, pois a natureza tem um papel fundamental na construção do sistema que chamamos de corpo. Os órgãos centrais do corpo humano, texturizados com padronagens da natureza, demonstram que a estrutura do nosso ser é formada justamente por ela. A obra é, também, uma reflexão pessoal de estudantes que convivem diretamente com uma natureza que tenta retomar seu espaço entre as paredes e corredores da EBA.
Antiaris Santos
Após enchente
Acrílica, óleo, pigmento e pasta de cera sobre tela. 144 x 188 cm
2025

Em janeiro de 2024, a Baixada Fluminense foi tomada por uma tempestade que fez o Rio Botas transbordar, inundando casas e ruas. Da janela, observei a força das águas submergindo a mata ciliar e avançando sobre meu lar, onde cada cômodo virou extensão do rio. Uma árvore à frente da casa se tornou símbolo de resistência. Dois meses depois, uma nova cheia arrastou a mesma árvore, revelando a potência criadora e destrutiva da natureza. Hoje, resta sua memória, transformada em pintura, como lembrança da devastação ambiental.
Arthur Ramos Feltre
Máscara para uma Árvore
Gravura. Impressão de textura de saco plástico, máscara de papel e linha de costura sobre papel. 66 x 42,2 cm (obra sem moldura) e 78,7 x 62,6 cm (com moldura)
2025

Dos restos esquecidos, nasce uma matriz inventada, feita de marcas e texturas que carregam memória e lirismo. No processo de imprimir, revelam-se as forças do grafismo que habitam nesses objetos. Proteção e ruptura, vida e desgaste. A árvore surge como um corpo sonhado, símbolo de resistência diante do caos e da poluição.
Átila
Florações de manga
Óleo sobre madeira . 60×80 cm
2025

Florações de manga é uma pintura a óleo que retrata Rebeka e Kerollyn, sobrinhas do artista e moradoras da Mangueira. A obra é uma releitura de um retrato oitocentista. O artista adota a linguagem clássica, mas desloca para o centro corpos negros e periféricos, historicamente invisibilizados, num gesto político e poético. A mangueira e seus frutos atuam como metáfora do território, de sua gente e memórias, evocando a resiliência que floresce na escassez. A obra enlaça apagamentos ecológicos e sociais, denuncia desigualdades e, além disso, afirma a esperança e a potência que “brotam” nas margens.
Bernardo Marques
Sem título
da Série: Apanhador de desperdícios
Gravura em côncavo. 66×98 cm

Gravura pertencente à série Apanhador de desperdícios.
A obra é feita a partir da reutilização do tetra pak, material com o qual a indústria produz as caixinhas de leite, sucos, dentre outras bebidas. As mãos e a mente do artista transformam esse material refugado no processo de consumo em matéria e motivo de sua arte. Entre o lúdico e o lúcido, o artista se equilibra, orientando o olhar do espectador não só para o sentido geral da obra, como para os detalhes que as compõem. O processo de composição, envolve amassamentos, incisões, cortes, recortes e dobras do material.
Beta Azevedo
Birimbitim
Instalação. Poliestireno, massa acrílica, tinta e verniz acrílico. 20 cordões medindo aproximadamente 300 x 10 cm
2025

A Fava de Exu (Abrus precatorius) é uma planta de valor simbólico para diversos grupos, especialmente para os povos de religiões de matriz africana e comunidades tradicionais em todo o mundo. Sua ampla distribuição mundial, principalmente em áreas tropicais e subtropicais, levou a uma diversidade de usos, dentre os quais destaco as práticas litúrgicas e ornamentais.
Essas formas de utilização, aqui no Brasil, se devem ao papel crucial desempenhado pelos povos africanos que, em condição de escravizados, dispersaram sementes vindas da África e incorporaram plantas nativas na readaptação de seus cultos. Tal fava faz parte desse compilado por ser uma espécie simbólica do orixá que reverenciamos em primeiro lugar (Exu). Ele é o princípio de tudo, aquele que desata os nós e fornece a erva (Birimbitim), que se faz imprescindível em um processo iniciático. A fava em questão, ao passo que amadurece, se contorce em seu próprio eixo, até chegar ao ponto em que suas sementes ficam expostas e são expurgadas para a terra. Assim como na natureza, o processo natural de torção – abertura – expurgação possibilita que a vida brote na terra. Interpreta-se tal movimento como um ciclo natural da vida, onde Exu, o senhor dos encontros e desencontros, proporciona contorcionismos singulares na vida, levando à expurgação do objetivo da vida. Nela não há linearidade. Além disso, pensando no processo em que corpos dissidentes são socialmente contorcidos, encontram formas de expurgar novas vidas, possibilitando diferentes maneiras de (re)nascer e (re)viver, apesar das adversidades.
Bianca Sardinha Melo
“À mercê“
Xilogravura e monotipia de sacola plástica. 42 x 59,4cm
2025

À mercê retrata uma cena de vulnerabilidade onde o pombo é sufocado pela sacola plástica que envolve seu pescoço e pesa ao longo dele. A figura da sacola retrata impasses coletivos ou individuais, impostos ou voluntariamente sofridos por nós. Já o pombo, um sujeito impossibilitado de voar, vítima do ambiente ou até de si mesmo, preso àquilo que o sufoca.
Brenda Cantanhede
SUSPENDER O CÉU
Videoarte

Surge como um retorno aos símbolos atávicos de um passado quase esquecido, em diálogo com diversas poesias e teorias. Convido o espectador a adentrar um sonho coletivo, entendido como um ato político e revolucionário. O projeto se insere no campo da videoarte, onde crio montagens de um cenário celestial a partir de imagens artificiais, acompanhadas de velas coloridas que filmei durante todo o processo de queima. Com duração de seis minutos, documenta o caminho de derretimento das velas nesse espaço imaginado, fazendo alusão ao sonho, com a vela funcionando como um instrumento de conexão, um portal para realidades invisíveis.
THEBRENDAS
Antônio | Brenda Cantanhede | Chico | Cristiane | Rosita
Show performático musical. Música experimental + voz + intervenção poética. Duração: 30′

Uma apresentação que desafia os formatos convencionais de shows ao propor integração entre música, artes visuais e presença performativa. A desconstrução da relação tradicional entre público e banda ocorre por meio de recursos cênicos, participativos e visuais, construindo uma experiência de arte expandida. A experiência multissensorial da apresentação traz para o centro do debate a construção da subjetividade humana na contemporaneidade, marcada pelo monopólio dos meios de comunicação de massa e pela ascensão livre de discursos fascistas
Bruna Ribas
CSN
Xilogravura. Relevo sobre madeira, tinta asfáltica, poeira de ferro da csn. 80 X 110 cm
2025

A Fábrica deixou de ser apenas concreto e a habitar apenas o outro lado da cerca na rua, para se tornar digital e operante em todas as formas de persuasão em massa disponíveis aos braços do capitalismo contemporâneo. A atualidade digital derrubou os muros da então fábrica industrial, para trazê-la portas adentro de cada aspecto de nossas vidas diárias. Somos, então, o produto condensado da máquina capital operante, atuando em nossos ofícios diários como engrenagens da grande Fábrica, que segue pulsante em incessante e silencioso funcionamento.
Sob a estética de pixels, bits e glitches, a traduzir as telas através das quais consumimos a maior
parte das imagens que chegam até nós diariamente, o trabalho traz para a matéria da madeira a descrição de uma realidade atual e possível em nosso cenário global, principalmente em se tratando das consequências dos impactos ambientais vividos no atual antropoceno. Ao mesmo tempo, retrata uma paisagem de cunho afetivo em se tratando da “terra natal” vivenciada pela artista, trazendo para a superfície do trabalho também a própria matéria dessa atual realidade: a poeira de ferro que paira no ar da cidade proveniente da Fábrica.
CHENDO
Série: CARNES
2024/25
“O meu buraco”
Tinta a óleo e poliuretano s/ tela. 90 x 74 cm
“Fora da caixa”
Tinta a óleo e acrílica s/ tela. 90 x 60 cm
“Ensaio”
Poliuretano e sangue falso s/ tela. 26 x 26 x 15 cm

Duas carnes, vermelha e verde, cores opostas cromaticamente, díspares, que quando juntas se completam, formando um efeito visual chocante. A carne passeia pelas obras, viva, se transformando incessavelmente. A vermelha é humana, que sangra e respira através da tinta a óleo, definida à mão, mais controlada. A verde é artificial, estranha, com textura irregular, feita de poliuretano, despejada
descontroladamente.
Ao longo das obras, a massa vermelha diminui, e a verde aumenta, colocando-se em voga, trazendo alusão no medo e estranheza da quantidade de plástico que existe em nossa carne.
Cláudia Lyrio
Série História Natural
2020
“Rolinha-do-planalto”
Óleo e grafite sobre linho. 100×80 cm
“Jandaia-amarela”
Óleo e grafite sobre linho. 100×80 cm

Na série História Natural (2019 ao presente), voltada a pensar a crise climática e a devastação dos biomas, as pinturas a óleo representam pássaros em um ambiente que permanece no desenho (grafite). Cada ave porta uma etiqueta com a sigla do status de conservação de sua espécie na natureza, conforme classificação internacional. Olhar o pássaro etiquetado fora da paisagem (Está à venda? Está taxidermizado? Está numa vitrine?) é pensar ilusão e quebra de ilusão, exaltação da natureza e alerta de extinção. Apresento, na Bienal, a Rolinha-do-Planalto (CR= em perigo crítico) e a Jandaia-amarela (EN = em perigo). O título da série aponta a base irônica do projeto.
David Lima
Lugar à Mesa
ilustração digital impressa em tecido sintético. 200 x 200 cm
2022-2023

A obra nasce do fascínio por mesas repletas de pessoas e de um desejo pessoal de pertencimento. Da conversa na mesa de bar à reunião familiar na ceia de Natal, dos churrascos aos finais de semana aos parabéns dos aniversários – a mesa é um microcosmo onde se cruzam encontros, risos, silêncios e memórias. Sendo uma releitura da Última Ceia, a obra celebra a brasilidade e a cultura preta contemporânea, reunindo corpos diversos e gestos cotidianos repletos de simbolismos. Mais do que sobre relações de afeto preto, a obra dialoga também acerca do desejo humano de ocupar um lugar próprio no mundo.
Diana Akokán
Santas Contemporâneas
Óleo sobre tela e borboletas de papel. 62 x 82 cm
2025

Desde 1994, Las Patronas distribuem comida e água para mitigar o sofrimento das pessoas a bordo do trem La Bestia, rumo aos Estados Unidos. Esse país, que criminaliza imigrantes latinos, é notável causante de deslocamentos humanos pelo nosso continente.
Nação com histórico imperialista, que disseminou disparidade social e violência pela América Latina, é o segundo maior poluidor mundial, amplificador do aquecimento global que afeta principalmente as populações mais vulneráveis. EUA é a Sociedade da Inimizade de Mbembe. Las Patronas são o amor eficaz. A chama de empatia na fronteira mais escura.
EBA!
A Todo Tempo
Tinta acrílica, caneta posca e giz pastel oleoso sobre madeira. 21×155 cm
2025

A todo tempo, eu existo. A vida nunca para. A existência é incessante. Quando durmo, eu sonho; e quando acordo, tenho que fazer escolhas.
É tudo parte de uma dicotomia, isso ou aquilo, e todos os caminhos são difíceis. É preciso estar presente e se envolver, pois é a multiplicidade de caminhos que torna a poesia interessante.
Eduardo Moura de Araujo
Tentativa Aterrorizada
Videoperformance. 2`30“
2025

A videoperformance propõe um atentado terrorista invertido, em miniatura, veiculando sua perniciosidade da forma mais direta possível, desarticulada de relações de causa e efeito exteriores. Busca diálogo com as pulsões de morte que perpassam o indivíduo na sociedade organizada, sendo controladas e reprimidas, ao mesmo tempo que diretamente articuladas em narrativas e políticas. Assim, o vídeo coloca o indivíduo como, simultaneamente, agente e vítima de uma violência pura, desorganizada e vã, em um ato tautológico justificado pelo privilégio da imagem técnica enquanto distribuidora de violência.
Ellen Seabra de Lima Mucci dos Santos
Cartografia de um corpo
Escultura/Instalação. Impressão 3D. 140x300x245cm
2020-2024

Cartografia de um corpo nasce durante a pandemia de um gesto manual de experimentação. O corpo-feminino aparece como território e mapa: linhas-cicatrizes, vazios-feridas. A forma contorcida, que aos poucos se assemelha ao globo, expõe a ambivalência do período — respiro da natureza, agravamento da violência de gênero. Entre ecofeminismo e memória, a obra reinscreve o corpo como sujeito histórico que resiste. O material sintético derretido tensiona permanência e fragilidade, presença e apagamento.
Erikson Veríssimo
Ibirapitanga
Gravura em metal sobre papel vergê. Gravação de folhas e cascas da árvore Pau-Brasil (tupi: Ibirapitanga). série 1/5. 29,3 x 35,5 cm
2025

Ibirapitanga, nome tupi do pau-brasil – madeira vermelha –, é uma obra feita a partir de folhas e cascas dessa árvore coletadas pelo artista. A obra propõe um embate entre símbolo nacional e matéria violentamente extraída da paisagem. O uso da própria árvore reinscreve a bandeira em matéria viva, tensiona símbolos nacionais e a história da pilhagem colonial que transformou territórios e vidas em mercadoria. Na gravura em metal, esses fragmentos vegetais deixam marcas fixadas com ácido, tornando-se documento que persiste mesmo diante da tentativa de apagamento.
Félix
Série Trançar Caminhos
Sem Nome
Fio de nylon, miçangas azul e vaso de cerâmica. Dois fios de 07m
2024

Trançar Caminhos propõe a tecelagem como linguagem de ancestralidade e oráculo do invisível. O gesto de tramar miçangas — vidro, osso, argila, semente — reativa memórias corporais e espirituais, transformando o fazer manual em rito, resistência e reconexão. A instalação em grande escala expande a simbologia das guias e contas do Candomblé, criando caminhos e redes que evocam os fios da comunicação com o sagrado. Entre repetição e ritual, a obra instaura um espaço imersivo onde matéria, corpo e espiritualidade se entrelaçam.
Gabriela Irigoyen
Somos Plásticos
Livro de Artista. Impressões a laser em papel vegetal unidas por canaleta plástica. 21,5 cm x 30 cm (fechado) e 39,5 cm x 30 cm (aberto)

Por meio de sobreposições de imagens de mãos, capturadas por diferentes técnicas (fotografia, desenho e monotipia), o livro cria uma espécie de palimpsesto, onde as formas se confundem, fundem e transfiguram umas nas outras. As impressões em papel vegetal transparente sugerem fluidez, mas estão unidas por meio de uma canaleta plástica rígida, evocando simultaneamente leveza e aprisionamento. O livro ressoa em dupla direção: somos seres capazes de adaptação, mutação e reinvenção,contudo também absorvemos, literal e simbolicamente, o plástico que nos cerca e invade nossos corpos.
Gabriella Sales
A partir do interior
Óleo sobre tela. 120x120x3cm

A partir do interior propõe uma reflexão sobre os limites entre dentro e fora, e entre memória e ausência. A atmosfera azulada indica a complementaridade do interior e do exterior, onde os objetos apagados revelam presenças dissolvidas pela ação humana e do tempo. O verde resistente e o branco que escorre instauram uma tensão entre permanência e esvaziamento, convidando a pensar sobre o que se perde, o que resiste e o que merece ser preservado.
Giu Cabral
Transformação
Sementes e plantas germinadas, argila, casca de abricó-de-macaco, pastel oleoso e recipientes reutilizados de vidro com água. Dimensões variadas.
2023 – atualmente

Transformar é estar em um modo constante de acreditar nas possibilidades da vida. Ao relacionar os elementos da natureza – e a própria natureza e suas metamorfoses – de encontro com as germinações humanas, a obra Transformação busca fazer sentir que é possível um desabrochar próprio e coletivo que pode ser vivenciado em um quintal. Quando nos perdemos de nós por não podermos ser, cabe se encontrar no princípio, e que nessa busca de ser quem se é, quando sentimos que fazemos parte da natureza, entendemos que as transformações igualmente fazem parte de nós. É criar enquanto se cria.
Hannah Cunha
Ai que delícia o verão
Óleo sobre tela. 55x55cm

Ai que delícia o verão parte da experiência sensorial do calor extremo para refletir criticamente sobre os impactos das ações humanas no meio ambiente. A obra ironiza o imaginário solar e festivo do verão para revelar a realidade do calor intenso nas cidades, onde o corpo urbano, exausto, busca sombra em postes e enfrenta o asfalto quente. Refletindo sobre o entrelaçamento entre o ser humano e seu meio, a obra investiga a ecologia cotidiana e as consequências práticas e simbólicas do desequilíbrio ambiental. Não se trata de fantasia tropical, mas da realidade urbana contemporânea.
Igor Affonso
Dataviz tátil-sonoro: Cartografias sensíveis dos museus Fluminenses
Instalação interativa em MDF cortado a laser, guizos sonoros, tinta acrílica e QR code tátil para audiodescrição. 146 cm (A) x 220 cm (L) x 3 mm (E)
2025

Dataviz tátil-sonoro: Cartografias sensíveis dos museus fluminenses é uma instalação que traduz, para o campo tátil-sonoro, dados sobre acessibilidade comunicacional em museus do Estado do Rio de Janeiro. O trabalho transforma uma visualização de dados originalmente digital em experiência corporal, convidando o público ao toque e à escuta. O mapa em relevo, símbolos, texturas e guizos permitem explorar informações de forma não visual, instaurando uma nova gramática sensorial compartilhada entre artistas, designers e visitantes. A obra reflete sobre o direito de acesso à cultura e evidencia a potência do design como prática ética, política e poética.
Igor Totti
Serra Pelada
tinta acrílica e óleo sobre tela. 120 x 150 cm

A obra Serra Pelada resgata um dos episódios mais intensos e simbólicos da história recente, ocorrida no Brasil profundo: o maior garimpo a céu aberto do mundo que, nos anos 1980, atraiu dezenas de milhares de homens ao sudeste do Pará, impulsionados pela promessa do ouro e sobrevivência. A obra articula a tensão entre a ocupação humana em massa e o brutal impacto no território. É construída por uma linguagem visual à base de uma técnica mista de tinta acrílica e óleo sobre uma tela, com uma imprimação do piso de concreto da Escola de Belas Artes. A paleta terrosa e os elementos pictóricos densos evocam a sobreposição de corpos que existem sob a desfiguração da paisagem, resultantes de uma extração predatória e desordenada.
Inspirada nas fotografias icônicas de Sebastião Salgado (in memorian), a obra vai além da documentação para revelar a dimensão trágica e coletiva da devastação: não apenas humana, mas também ambiental. O solo escavado, a destruição da vegetação nativa e o desequilíbrio ecossistêmico ecoam como feridas abertas junto da ausência de horizonte claro. Serra Pelada é, assim, uma obra visual vinculada ao custo real de uma lógica de exploração e opressão humana com o meio natural. A obra atua como memorial e denúncia: convoca o olhar contemporâneo a refletir sobre as cicatrizes que o extrativismo deixa no corpo da terra — e nas vidas dos povos.
Índigo Braga
Seres de Plástico I, Pós-Holoceno
Série Neofósseis
Cimento, pigmento xadrez e polietileno. 6 x 29 x 26 cm
2025

Seres de Plástico I, Pós-Holoceno é uma obra da série “Neofósseis”, esculturas de fósseis de animais transexuais fictícios que viveram antes ou depois do nosso tempo. Trata-se de uma ficção atribuída ao futuro – o fictício Pós-Holoceno, época que seguiria ao nosso atual período geológico –, construindo um animal marinho que mimetiza, em sua forma, uma sacola plástica amplamente presente em seu ecossistema. O projeto pretende provocar sobre a existência queer sob uma perspectiva interespecífica, escancarando a relação entre a artificialidade humana e a sua absorção pela natureza.
Isabelle Ribeiro
A curva do tempo
Escultura. Concreto moldado sobre base de concreto, com estrutura interna de vergalhões e tapumes como forma. 230 × 14 cm
2025

Moldada a partir do afundamento real do piso da Escola de Belas Artes, A Curva do Tempo transforma a falha estrutural do edifício em gesto escultórico. O concreto registra o peso dos anos e a lentidão da ruína, revelando o tempo como força que dobra e sustenta. A escultura não corrige o colapso, mas o torna visível. É o chão que cede e, ainda assim, resiste, corpo e memória de uma instituição que insiste em permanecer.
Josiana Oliveiras
Anteparo para o amanhã
série “Entre as árvores”
fotografia impressa em tecido sobre tela. 120 x 130 x 70 cm
2018 – 2023

O trabalho apresenta uma paisagem capturada no Vale da Lua, em Itaipava, Petrópolis-RJ.
Ao dobrar a cena e projetá-la para fora da parede, gera-se uma outra dimensão expositiva, ampliando o ponto de observação e instaurando uma linha de tensão visual que funciona como metáfora do “anteparo” — algo que divide, protege, projeta e cria limites.
O registro dessa paisagem não captura apenas sua beleza, mas também a resistência de um território em transformação. A fotografia torna-se um gesto de memória e alerta diante da rápida expansão urbana e imobiliária que ameaça a identidade da localidade.
Ju Morais
Cacos I
Madeira usada, costura e crochê de arame. 147 x 105 cm

Madeiras cortadas, furadas como tecido por uma agulha, são unidas por pontos de arame. A costura e o crochê, deslocados de seu campo tradicional, tornam-se técnica de construção, criando amarrações que sustentam, conectam, erguem. Aqui, o gesto manual se inscreve como estrutura. Entre o têxtil e o arquitetônico, a obra explora tensões entre força e delicadeza, matéria e afeto. O fio, que um dia contornou corpos, agora organiza espaço.
Karen Cerqueira
Adiamento
Série: Ecos do Abandono
Gravura em metal. Técnicas combinadas de água-forte e água-tinta. Impressão em papel 300g. 14,8 x 21 cm

Em Adiamento, meditei sobre a nossa inércia e a marca que a ausência deixa. Como no poema de Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa, busco a angústia daquele futuro que sempre fica para depois. A gravura, inspirada num prédio abandonado da UFRJ, me toca em um lugar sensível: um esqueleto de concreto que, para mim, se tornou um monumento ao futuro que nunca chegou. O contraste entre o concreto e a vegetação que avança não é harmônico, é o eco da nossa própria desistência, o jeito que o ambiente encontra para preencher os restos que deixamos para trás. Os ecos silenciosos que vêm das nossas próprias ruínas, sejam elas pessoais ou coletivas, mostram que não apenas nossas ações, mas também nossas pausas e ausências, moldam nossos espaços no mundo.
Lívia Nuno
Artifício Tropical
Acrílica sobre Algodão
Aravita 1,60 m x 1 m
Presença 1,04 m x 70 cm
Fish Lux 20 cm x 20 cm
2025

A série Artifício Tropical nasce da observação da relação do homem com a natureza e o cotidiano, debatendo temas como a artificialidade do meio natural, o capitaloceno e a durabilidade dos objetos de consumo, que hoje dominam o que antes era um espaço orgânico, cíclico e efêmero. A pesquisa se materializa e se concentra, também, em representações visuais surrealistas, que satirizam o senso comum ao mesclar fantasia e realidade e ao reconfigurar a posição da figura humana no mundo, de modo que a natureza ocupe e domine o espaço de convívio.
Lívia Tata’pora
Armadilha lll: um se divide em dois
Instalação. Casca de ovos e pregos. 2m de diâmetro

Lívia apresenta um conjunto de obras reunidas na série Armadilha. Fruto de um processo contínuo desenvolvido ao longo de sua graduação em Artes Visuais – Escultura, a série nasce de uma investigação política sobre o território, partindo das contradições globais e das formas como elas se sobrepõem, se articulam, se estabelecem e coexistem, tanto no campo simbólico como no material-histórico.
Historicamente, armadilhas são ligadas a artefatos e artimanhas com objetivo da caça e captura. A armadilha tem o poderoso potencial de metamorfose, podendo assumir formas menos hostis – mas não menos letais – como um papel assinado ou um aperto de mãos. Armado o mecanismo, inicia-se uma relação entre presa e caçador, em um jogo onde é imperativo o disfarce para a captura de um animal, um inimigo ou um povo.
Lívia cria, em sua terceira armadilha, uma interlocução sobre as dualidades presentes na matéria. Da casca do ovo partida, exibindo seu aspecto frágil, brotam pregos, similar a uma flor de planta espinhosa. O trabalho busca compreender o fenômeno da contradição presente em toda relação da natureza: a briga entre os opostos movimenta o desenvolvimento da vida. Entre a fragilidade orgânica à dureza industrial; o convívio entre a fertilidade e a morte; o perecível e o fixo, habita um que se divide em dois.
Luana Gomes
sobrevivendo na ebulição global
Acrílica sobre blisters. 35,5 x 41 cm
2025

Sobrevivendo na ebulição global trata da angústia de se manter funcional em um mundo cujos recursos naturais se encontram cada vez mais escassos, assim como os impactos na nossa saúde, especialmente na saúde mental. Mesmo com o colapso climático, desastres ambientais frequentes, falta de direitos básicos e de um futuro incerto, ainda devemos continuar extremamente produtivos, até que um robô possa nos substituir e sejamos descartados. E quando substituir? Qual o mundo que vai sobrar?
Lucas Gusmão
“Para onde ir no fim do mundo?”
Acrílica e óleo sobre tela. Diâmetro de 70cm
2025

Em Para onde ir no fim do mundo? , Lucas Gusmão faz do trompe-l’œil — a ilusão que engana o olho — sua ferramenta de condução para criar camadas de sentido que se revelam aos poucos.
Num primeiro instante, é a simplicidade de uma natureza morta, um gelo derretendo e a pílula que repousam sobre a superfície de uma porcelana ornamentada — herança de um requinte importado, legado de louças europeias e uma cultura dominante — com parte em chamas. O realismo detalhado, resultado do uso rigoroso do trompe-l’œil, cria uma presença tão palpável que quase se pode tocar.
Mas, à medida que os contrastes da louça e das chamas instigam o movimento do observador, algo se revela camuflado: pequenas figuras de trabalhadores também sobre a superfície. É nesse detalhe minúsculo que mora o gesto político e ecológico: evidenciar a consequência, embora escondida, que nossa organização tem sobre quem serve, quem limpa, quem sobrevive. A classe trabalhadora procura se dopar, fugir da realidade.
Lucas Mourão
Peixes-bala
Políptico
Peixe-tamarindo (Paracheirodon tamarindus)
Peixe-hortelã (Puntigrus mentha)
Peixe-moranguinho (Hyphessobrycon fragaria)
Peixe-bolhete (Carassius ounário)
Peixe-Luquinha (Zebrasoma lucius)
Peixe-Beta (Betta septem)
Peixe-Iara (Microdevario malus)
Peixe-caramelo (Symphysodon calămu)
Peixe-coco (Poecilia cocos) Série Glicoichthyes
Aquarela sobre papel 100% algodão. 22 x 30cm
2025

O políptico Peixes-bala reúne nove aquarelas que hibridizam peixes ornamentais e embalagens de balas da cultura brasileira. Compondo a série “Glicoichthyes”, as obras tensionam entre o natural e o artificial, refletindo sobre o que se dissolve e o que permanece — o doce sabor efêmero e o plástico de longa duração. Com uma estética pop e nostálgica, essas espécies revelam a banalização dos resíduos em meio ao consumo. Ao transformar afetos em crítica ecológica, Glicoichthyes convoca, com um olhar nostálgico, a reconhecermos nossa responsabilidade ecológica.
Lucas Muniz Reis
Diário Visual de Quarentena por Sem Cabeça
Livro em impressão a laser sobre papéis variados, com encadernação manual em costura. 10,5x11x1cm (fechado). 39,5×37,5cm (aberto)

Editado a partir de um diário visual livre, o livro experimenta possibilidades de conteúdo e formato a fim de estimular variações de leitura. As páginas, com aberturas diversas, misturam colagens, desenhos, textos e apropriações de impressos, sobretudo efêmeros presentes no cotidiano. A montagem manual, com trechos diferentes em cada exemplar, busca subverter a reprodutibilidade técnica. Devido ao contexto em que foi feito, aborda aspectos da pandemia, como a morte e o isolamento. Apesar do excesso de informações, refletir a sociedade de consumo demanda atenção e interação ativa para ser lido.
Lucca Toscano
Aglutinação
Fotografia

Aglutinação consiste em fotografias de diferentes objetos que estavam abandonados e foram incorporados pela natureza. Tim Ingold, em Trazendo as coisas de volta à vida: emaranhados criativos num mundo de materiais, propõe a ideia de coisa em oposição à noção de “objeto” – delimitado e fixo. Coisas são compostas por tudo aquilo que interage com elas. Os seres que vivem na casca de uma árvore também são parte dela, por exemplo.
Nas fotografias, vejo que os “objetos” abandonados podem ser melhor compreendidos como coisas. Não têm início ou fim. Estão vivos, emaranhados e em constante conformação.
Luisa Pereira
Série: O AGRO É POP
Descartavél
Vídeo performance. 2’38”
2024

Descartável é uma vídeoperformance que faz parte da série O AGRO É POP. A partir da apropriação e subversão da propaganda, os trabalhos têm como objetivo fomentar uma narrativa crítica sobre o consumismo, meio ambiente e gênero. Com pinturas, instalações e performance, a pesquisa O AGRO É POP constrói iconografias onde se evidencia o que não é mostrado nas embalagens, e onde elas vão parar depois.
Derramo seis garrafas plásticas de Coca-Cola sobre meu corpo, na areia da Baía de Guanabara, no alojamento da UFRJ. O resíduo plástico é descartado na praia, integrando-se à paisagem repleta de lixo.
Produto Tóxico
Acrílica sobre plástico
1,3m x 2m \ 6,5m x 2m
2025

Produto Tóxico é uma instalação que faz parte da série O AGRO É POP. A partir da apropriação e subversão da propaganda, os trabalhos têm como objetivo fomentar uma narrativa crítica sobre o consumismo e o meio ambiente. Aproprio-me de embalagens icônicas, subvertendo-as ao adicionar o símbolo de transgênico. A repetição desse símbolo traz reflexões sobre a linguagem da publicidade. Se a Pop Arte norte-americana fetichizava a mercadoria, aqui a apropriação desmistifica os signos.
Marcos Alany
O Palco foi o Mar
Série: Passagem de Bastão
Colagem, pintura e desenho digital / lambe-lambes. papel couchê fosco 120g/m2. 29,7 x 42 cm
2024

O Palco Foi o Mar – Série: Passagem de Bastão (2024) é fruto do trabalho de conclusão de curso do autor, que investiga a memória e o legado de João Cândido e dos marinheiros da Revolta da Chibata (1910), em resistência às injustiças impostas pela Marinha do Brasil. A obra utiliza o lambe-lambe como mídia de resistência, unindo passado e presente. Guiado pelo conceito de Sankofa, símbolo e filosofia africana da tradição Adinkra, o processo de criação íntegra colagem, desenho e pintura digital, combinando imagens históricas dos marinheiros da revolta a registros pessoais do autor, realizados durante seu período de serviço militar. A série convida o público a levar adiante o legado desses homens do mar.
Maria Luiza Dan
Marca de Nascença
Escultura. Vergalhão. 35 x 12 x 9cm

Marca de Nascença parte do gesto de marcar, ação que atravessa corpos, territórios e memórias. A escultura tensiona o símbolo nacional ao fundir o ferro do poder e o fogo da dominação, transformando a bandeira em cicatriz. Feita em vergalhão, a obra carrega o peso das estruturas que constroem e aprisionam, evocando o impacto humano sobre a terra e sobre si mesmo. Em “Marca de Nascença”, a bandeira não tremula ao vento: se crava na carne da história.
MEL
Fui feliz aqui
45 Cianotipias sobre papel 300g. 10,5 cm x14,8 cm – tamanho individual

O conjunto de cianotipias Fui Feliz Aqui é feito a partir da coleção de pequenas plantas, como souvenirs, de diversos locais onde a artista esteve presente. De fato, para além da formação estética e agradável da diversidade de plantas e do azul da cianotipia, o título é um convite a pensar na valorização das pequenas coisas. A obra apresenta um sucinto jardim e é uma pausa em um mundo caótico de informações. Fui feliz aqui, é um pequeno momento de meditação.
Miguel Felipe Magalhães de Souza
Acho que amanhã é sábado
Óleo sobre painel. 60x60cm
Ontem foi sábado?
Tinta óleo sobre painel. 50x50cm
Sábado
Óleo sobre compensado naval. 30x90cm

Acho que amanhã é sábado
O pensamento que guia este trabalho é o embate entre resignação e o anseio por mudança. A luta entre a crença de continuar trabalhando mais e mais para alcançar outra posição e a de que, depois de tudo, nada resultará, de fato, em uma alteração, de que o que vive persistirá até a sua morte. E sobre como crenças, familiares e um algo externo, muitas vezes, são os elementos que acabam servindo como apoio ou combustível para se aguentar a rotina e acreditar numa possível transformação, na chegada ao sábado.
Sábado
Sábado representa que nem sempre o que se esperava e buscava acontece. Em que muitas vezes acaba que o dia de descanso, por exemplo, torna-se o de resolver uma questão fora ou dentro de casa, e lidar com o que for possível no tempo que tem, e se o tem. A cena busca mostrar os personagens novamente no lugar de sempre, no trajeto, porém, aqui estão à espera depois da quebra de um ônibus – contrasta com a ideia de achar que, só por ter feito tudo direitinho, chegado na hora, deixado espaço para uma ou outra coisa, há o controle do que ocorrerá. Não há, e o que resta é esperar o próximo na esperança de conseguir fazer dar certo.
Ontem foi sábado?
O que busquei representar no trabalho é falar sobre o ciclo de uma rotina que impede a percepção do tempo e o seu aproveitamento. Onde a escura manhã, na qual o trabalhador sai, e a noite, retorna, acabam se misturando e impossibilitando uma certa diferenciação de em qual tempo a pessoa se encontra. O pensamento acaba sendo de ir de um ponto a outro, de concluir as etapas de cada dia e voltar bem para repetir novamente a rotina no dia seguinte. Nisso, certas noções acabariam sendo apagadas, e o que mais importa acaba sendo realizar, concluir
Paula Salgueiro
Brincando à noite perto de casa
videoarte. Técnica: Vídeo horizontal (1 canal). 1’
2025

A forma como eu imaginava a metrópole na infância se mistura à experiência real, agora que adulta.
Com brinquedos típicos dos anos 2000 e sons de faz de conta, cria-se a fantasia de uma brincadeira sobreposta ao cotidiano.
Conforme a noite se torna madrugada, a hora de brincar chega ao fim. E, como quando os pais desligam as luzes e você tem que demolir sua construção, fica tarde demais para andar nas ruas do Rio.
O vídeo se desmonta aos poucos.
Só resta a lua que eu vi às 2 da manhã de uma noite de verão, na Urca.
Fui pra casa, deitei na cama, e agora eu-criança e eu-adulta podemos dormir.
Racrel
Florescência Neural
Máscara escultórica em crochê. 25×27cm
2024

Esta máscara de crochê funde a delicadeza orgânica das flores com a complexidade anatômica de um cérebro, criando uma metáfora tátil sobre a relação entre natureza e pensamento humano. Os pontos entrelaçados representam a teia de conexões entre nossa consciência (o cérebro) e o mundo natural (as flores).
Rafael Frota
Metamatéria: Fortuna
Fotografia híbrida digital. Impressão em vinil adesivo sobre chapa de poliestireno. Políptico – 65 x 100 cm
2024

Estas são imagens de ossos, órgãos e cadáveres reais, cedidos pelo ICB-CCS/UFRJ e pelo Museu de Anatomia da UFRJ. Assim, Metamatéria: Fortuna torna-se um convite para que, diante da imagem do corpo morto — do destino inevitável (fortuna, em latim) —, possamos nos entregar a um momento de reflexão sobre a vida e lembrar que também somos natureza. O corpo é a morada originária da existência; desse modo, a forma como o habitamos pode ser compreendida como nosso gesto ecológico mais primitivo. Projeto desenvolvido no laboratório PHADEC (Photography: Art, Design & Communication).
Rafael Vilarouca
Pós-paisagem
Vídeoarte. Técnicas: fotografias e animação. 9:37″
2020

Animação construída a partir de fotografias de murais que retratam paisagens naturais em espaços públicos do Ceará — especialmente nas cidades de Fortaleza, Icó e Juazeiro do Norte. Ao remontar essas imagens fragmentadas, a obra propõe uma metalinguagem da paisagem, tensionando os limites entre natureza e cidade, artifício e realidade. No fluxo contínuo das imagens, a paisagem é, ao mesmo tempo, condensada e desconstruída, deslocada de seu contexto original e reinserida em um movimento ficcional. O que emerge é uma arqueologia visual, onde a idealização projetada nas representações da natureza colide com a erosão do tempo e da urbanidade.
Raíssa Vítola
Não-mapa de registros múltiplos
Técnica mista. Cianotipia, transferência de imagens, caneta esferográfica, costura e monotipia sobre papel canson 300 g/m2. 60cm x 59cm
2023

Normalmente, ao sair de casa, buscamos um destino para chegar e o GPS marca o caminho do deslocamento em um espaço já definido. Há um distanciamento muito grande entre nossas mentes e corpos e, com isso, a própria Terra parece um conceito vago.
Por 3 meses, realizei caminhadas no centro do Rio de Janeiro, com a mesma origem e destino final. Nelas, lembrei que tinha um corpo, porque meu útero doía, me fazendo refletir sobre as limitações de uma cidade construída sob lógica masculina.
Percebi que, criando a partir de minhas caminhadas, o mundo passava também por meu entendimento, gesto e corpo.
Ryan Hermogenio
Pau-Brasil
Coautoria: IA Generativa. Arte digital impressa em papel fotográfico. 85 x 85 cm
2025

Pau-Brasil é uma obra de arte digital que evoca a memória de uma árvore extinta, transformando ausência em presença simbólica. A obra tensiona fronteiras entre matéria e simulação, presença e ausência, evidenciando como a digitalização se torna metáfora da perda irreversível. Ao refletir sobre os impactos históricos do extrativismo e da colonização, a peça propõe um diálogo entre memória e consciência ecológica: aquilo que foi saqueado precisa ser lembrado, inventado e, mesmo que em pixels, preservado como testemunho da natureza e da história.
Sarah Chrispino
Jardim Selvagem
Xilogravura e monotipia sobre papel. 42×59.4 cm
2025

Jardim Selvagem é uma gravura que parte da observação de flores urbanas que brotam em locais improváveis, como terrenos baldios e rachaduras no concreto. Essas presenças frágeis e insistentes simbolizam a resistência cotidiana diante da dureza do ambiente. A obra busca uma analogia com a experiência humana: viver é, muitas vezes, sobreviver em um território hostil. Contudo, há beleza no esforço de desabrochar em meio às adversidades. A gravura acolhe aquilo que floresce de forma espontânea e indomável, celebrando a vida que encontra seu caminho mesmo sem garantias
SUMA
Objeto Vestível (versão Maturação da Queda)
Gabardine, algodão cru, barbatana e arame. Dimensões aprox: 180 x 110 x 80 cm
2024

O presente trabalho, Objeto Vestível (versão Maturação da Queda), surge do diálogo entre as Artes Cênicas e as Artes Visuais. Inspirado em Fausto, de Goethe, a obra cria uma narrativa visual que reflete a relação entre homem e mundo. As formas e texturas revelam a manifestação visual da frágil e ambígua relação das forças criadoras e destrutivas da existência humana, abrindo para uma reflexão do mundo a partir da imagem que evoca a fragilidade humana. Assim, o objeto materializa os conflitos internos de Fausto para além de uma compreensão psicológica e evoca seu embate existencial e cósmico.
Thaís Frossard
Manto Vivo
Fotoperformance. Fotógrafo: Felipe Lorenção. Modelos: Thaís Frossard, Nai Frossard e Maria José Ieker. 29,7 x 42 cm
2023-2024

O Manto Vivo é um figurino feito com as flores Chuva de Prata, e que representa a reaproximação do ser humano com a natureza. A criação é exibida através de uma fotoperformance. Toda a ação foi feita em um lugar que, para a autora, é solo sagrado, onde ela se conectou com a natureza durante o seu crescimento. Três mulheres vestem o manto, e seus momentos atuais acompanham as fases da flor, em três recortes diferentes. O trabalho representa, também, os ciclos e a efemeridade, a fertilidade feminina e da terra e, especialmente, a fecundidade que trouxe a autora à vida. Duas das performers são sua mãe e sua avó paterna, representando as duas partes de sua família. A cor branca da flor é para representar todo o ciclo da vida: o início e o fim, e o começo que nasce a partir de um encerramento – a origem que se perpetua através do tempo.
Thalita Loeser
Fluxos_
Videoarte. 1 ‘ 28 “
2025

Fluxos_ explicita o trânsito entre o natural e o digital, entrelaçando imagens e sentidos. Explora o “Ecos” como morada — física e digital — e como reverberação sonora, memória em movimento. Revelando uma narrativa visual e sensorial que conecta passado e presente, mostra que natureza e tecnologia, embora distintas para o senso comum, compartilham afetos, ritmos e pulsações que nos habitam e transformam.
Vanessa Marques
Anatomia dos Tubérculos Fatigados
A enxaqueca da Cabeça de Batata
Vertigem da Cabeça de Mandioca
A Rinite da Cabeça de Gengibre
O Edema da Cabeça de Inhame’
A Hepatite da Cabeça de Açafrão-da-terra
O Sonho da Cabeça de Batata-doce
Água-tinta, Água-forte e Buril s/ cobre. Impressão s/ papel Hahnemuhle 290g/m². 5,2 x 7, 4 cm

Em Anatomia dos Tubérculos Fatigados, a gravura em metal se torna um tratado visual sobre corpos exauridos por um tempo que confunde existência com desempenho. As seis cabeças de tubérculos: batata, mandioca, gengibre, inhame, açafrão e batata-doce revelam, em suas rachaduras e brotos, sintomas de uma era fatigada. Entre controle e imperfeição, corrosão e resistência, a série reflete sobre o esgotamento contemporâneo e sobre a força vital que ainda insiste em brotar.
vega
[ infiltração ]
Instalação. Gesso, látex, pregos, arame, plástico, esmalte vitral, resina e materiais orgânicos variados. 33 peças de dimensões variadas
2025

[ infiltração ] é uma ação instalativa itinerante que já foi realizada no Rio de Janeiro, Salvador, Fortaleza, Recife e São Paulo, principalmente em espaços públicos, mas também em exposições. Neste trabalho, são instaladas peças compostas por materiais orgânicos e de construção, que, ao mesmo tempo em que se fundem com esses espaços urbanos, como organismos híbridos que brotam do concreto, desafiam seu rigor e destruição, como planta que resiste no asfalto.
Corpo estranho que altera lugares de passagem, permeando estruturas. Sedimentação de materiais coletados em vivências.
Vera Schueler
No Jardim
Acrílica e óleo sobre tela. 90 x 60cm
2024

No Jardim traz a imagem de uma jaca madura ainda no pé, pronta para ser coletada por um transeunte ou pequeno animal, um presente da natureza que faz cessar a fome, mesmo que temporariamente. Quando criança, minha mãe saía pelas ruas da Ilha do Governador procurando por jacas maduras para trazer para casa. Com o passar do tempo, as árvores frutíferas foram sumindo da região, os vizinhos foram parando de coletar frutas nas ruas, o ritual ancestral foi transferido para os supermercados, e aquelas belas árvores que tinham o poder de alimentar caíram no esquecimento.
Vitória Alves
O Depois
Gravura em metal sobre papel Canson 200g. 29,7×42 cm
2024

O que vem depois da ação? O que vem depois da sobra? Quem serão os donos do resto?
A ilustração desta gravura em metal, que beira a abstração, transmite a energia do caos de quem consome aquilo que é deixado à beira das encruzilhadas pelas ruas do Rio de Janeiro.
Nos fatos, pombos assumem o controle de alguidares ofertados nas calçadas, cobertos de sangue, comidas e bebidas. Deliciam-se, em conjunto, até que alguém os espante. Depois deles, virão outros.
A energia se dissipa, ancorada naquela esquina, esquecida por seus feitores, jogada ao mundo e adquirida por aqueles dispostos a enfrentar forças de santos para se alimentar do que vem depois.
O alguidar, por sua vez, ficará a cargo do tempo: dissolvido, quebrado, largado.
O esquecimento cabe às pessoas, pois a rua não esquece seus caminhos.
Vitória Christina
Fragmentos
Série feita a partir de suporte não convencional, porcelanato chapiscado quebrado em formato irregular. Óleo sobre porcelanato. Triptico
Rua Prudente de Morais, 1062 – Ipanema. 44,5 x 20 cm
Rua 7 de Setembro,138 – Centro, 51 x 24,5 cm
Rua das Laranjeiras, 110 – Laranjeiras. 25 x 42 cm
2024

A cidade do Rio de Janeiro abriga um rico patrimônio arquitetônico, mas marcado pelo abandono e pela falta de manutenção. A exposição Fragmentos homenageia três prédios tombados e critica a negligência que os condena ao desgaste. Utilizando suportes reciclados e o porcelanato como símbolo de fragilidade, propõe refletir sobre a preservação, a responsabilidade coletiva e novas possibilidades para a pintura. Busca sensibilizar o público, resgatar memórias e transformar a ausência em presença, promovendo diálogo e conexão com a história.
